sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Jornada dos 8...



Cada um de um jeito se preparando para a jornada. Pois, sim, não é por que é férias, que não há de ser uma jornada e das cansativas. Ainda mais para oito pessoas viajando juntas. 
O agente de viagens, também conhecido como meu irmão, há meses organiza tudo. Na verdade, desde agosto. Procurar promoções, voos lowcost, trens, tickets de trem, entradas de musues, rotas e roteiros dá trabalho e piriris. Muitos piriris. E eu tentando o convencer de que qualquer ansiedade simplesmente terminaria ao chegara ao aeroporto. E nao foi que nao saiu conforme planejado? E a minha promessa não se concretizou. A mala nova "do agente", com apenas metade do peso, estourou. Mas nada "desmorounou", apesar de ele ter dito que era essa sensação.
A mãe de azul, combinante, com um echarpe azul floreada (a qual já tirou nos primeiros minutos no aeroporto, pois só usa para fazer charme, mas não se sente bem) queria já de dentro da van, recém estacionando no aeroporto, desembarcar, pegar a mala estourada e ir consertar. Fez isso, saiu "correndo", mas nao tinha ideia de onde podia arrumar a situacao. Resolvido com o protec bag, vamos pro check-in: "Tenho up grade pra executiva". "Será que o rapaz conhece o presidente da empresa em que trabalha? Eu sim." . "Mãe, não dá "carteiraço" que não vai funcionar!" Tudo certo. E a executiva deles garantida.
O pai meio perdido. Acho que quietinho de concentrado. Também combinante, mas de azul. E meio descabelado, no pouco cabelo branco que lhe resta na cabeça calva. "Vamos comer alguma coisa? Me dá o dinheiro, Jacinta!" Silencio pensativo. "Te dei os reais, mas acho que tu deixou em casa pelo jeito." Pai, usa meu cartao. A senha é xxxx. Memorizou?". Falei isso 5x ."Vou ali pedir a comida e já volto." Dois minutos e ele volta. " Vou ali no outro lugar." "Pai, a senha é... " . "Já memorizei na primeira vez, filha!"
A número 5, também chamada de Mana, Xuxa, Eliz, fica sempre meio perdida no meio disso tudo. Segue a gente só. "Cadê a Eliz? Não que a gente já perdeu ela em Poa?!" Ai ela diz: "Eu tô com fome, May, e vi que ali em cima tem chopp também. Vamos ali depois?!" Chega ela, minutos depois, com mc, batata, sundae, refri. "Ah, e esqueci que eu queria era tomar chopp!Droga!!"
Teve um que não veio na van com a gente e achou um exagero a quantidade de malas que saiu de dentro daquele escolar que a gente "fretou" para trazer a patota da zona sul ( com parada na zona norte para buscar essa que vos escreve). Aposto que pensou "Ainda que bem vim de uber e ainda deu tempo de fumar um cigarro!" Um chopp depois, hora de embarcar, vai ele fumar mais um. "Vejo voces lá dentro, pois a polícia federal sempre implica comigo." Passaporte dele é vermelho.
O pediatra que contratamos, para niguém ter crise de infantilidade, "entrou na faca" duas vezes nos ultimos três meses. "Tu vai escrever de mim. Sou sobrevivente." Galera ficou nervosa se a recuperação seria em tempo. Eu até cheguei a me sentir meio insensível em relaçao a isso, pois tinha certeza absoluta de que ele viajaria. Minha intuição não falha. E eis que ele já vem fazendo as piadas sem graça dele desde o aeroporto, pois queria comer um xis tudo, antes de embarcar. Se eu soubesse, tinha comprado no boteco do lado de casa e trazido para ele.
A professora de matemática trouxe monte de creminhos e perfuminhos. Sem procedência. Sem rótulo. Demorou no raio x. Justo ela. Que já estava emocionada desde a hora que eu disse "Fica tranquila, não terei tpm durante a viagem. Será somente a brabeza habitual mesmo!" Ou então tava chorosa da despedida
com a filha e o genro que vieram jantar conosco no pré-embarque.
Nesse contexto todo, me senti, deslocada. Acalmando o nervosismo do Mano. Dando com pito na agitação da mãe, brincando com Gelson e o Pai, zoando da Eliz que já estava com sono e do Marco nos Rrs. E alertando a Lu sobre minhas brabezas. E eu nisso tudo? Não tive tempo de pensar. Mas a questão é que eu nao gosto de avião. Entrando no finger, começou a tremedeira. O nó na garganta. O tique da mão. Movendo o polegar em movimentos curtos e circulares. A perna meio dormente. A vontade de chorar. Mano, sabendo disso, todo tempo do meu lado, dizendo que avião é seguro e é legal. Na hora de entrar no avião, paralisei. A viagem vai começar para mim também. É o que parece. Ele disse: "Respira fundo. Está tudo certo, Mana, quer segurar minha mão pra entrar?" 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O Rei na barriga...

As três semanas que incluem Natal, Ano Novo e o dia de hoje são sempre muito cheias. Junções, comilanças, ninguém descansa e não se para de festejar. Isso desde que eu era muito pequena.
Pelo "lado do pai", éramos 3 primas de primeira geração. As primas KK e eu. Até que perdi meu posto de a queridinha, a princesa, a que todo mundo agradava. Menos de um ano após termos nos mudado para a casa "com telhado" (pois antes morávamos em apartamento e na minha cabeça de uma criança de 4 anos, prédio não tem telhado), chegou aquele pacotinho gorducho e cabeludo.
Foi no Divina Providência que nasceu. Não foi parto normal, assim como quando eu nasci. Nesse dia, fiquei na casa da Dinda e quando a "entrada foi liberada", fui conduzida até lá para conhecer a criatura.
Nudes desde o final da década de 80
 Lembro de ganhar um bola daquelas do Quico do Chaves, uma fita cassete com músicas infantis. Ele que tinha me trazido. Ele? Aquela coisa miúda com cara de joelho? Nem vem... Dei uma "bizoiada" e como tinha me dado um Mirabel de Coco, fui sentar na janela com vista para o bairro. Sim, sentei na janela do quarto do hospital e curti a vibe, dando um susto em todo mundo. Não queria saber nada disso. Na verdade, preciso reconhecer, não quis desde o início, quando uma barriga estranha cresceu na minha mãe.
Lembro de ficar braba, revoltada com tantas visitas para conhecer aquele pacote de gente cagadinho. E ter que fazer de conta que eu achava tudo aquilo um máximo. Lembro de detestar o vestido branco que quiseram que eu vestisse no batizado e de detestar ainda mais quando quiseram que eu tirasse foto. Não tinha nada a ver com tudo isso.
Lembro de mandar, desmandar, enganar, debochar quando ele já conseguia entender melhor. E ele sempre caía. "Tem gente te chamando no portão" ou "Hoje é TEU dia de ir na padaria". Ou ainda "A Jéssica nasceu!"
Lembro que eu apertava as orelhas dele. Seguidamente. Por um longo tempo isso se repetiu. Até que ele decidiu falar para a mãe e ela disse ''Ué, puxa os cabelos dela". Larguei as orelhas dele. E sigo assim até hoje.
Faz de conta que a gente se dava bem...
Lembro que ele tinha pesadelos com "pipibas na cabeça". A casa inteira acordava. E ele achava que tinha formigas andando na cabeça dele. Acho que isso surgiu após algum evento com piolhos. Imagina... hoje acho que ele ficaria feliz com piolhos, uma vez que para tê-los significa ter cabelos.
Lembro que ele no auge de sua brabeza me chamava de "Boba Feia Chata Horrorosa". E era uma baita ofensa.
Lembro que ele tinha uma coleção de latinhas. Todas empilhadas em cima do guarda roupas. A mãe trabalhava e ficávamos sozinhos. De tempos em tempos, ele gritava "Socorro, socorro". Tinha dado um ''encontrão sem querer'' no armário a ponto de todas as latinhas cairem e ''soterrarem'' ele. Arruma isso antes que a mãe chegue e não vou te ajudar.
Lembro que ele trocava os móveis de lugar no quarto dele. 5 ou 6 vezes por ano. Até que um dia, movendo um cabideiro alto, quebrou o ventilador de teto, que ele ganhara de presente de primeira eucaristia.
Lembro que ele foi coroinha no casamento da Karin e ficou indignado no primeiro aniver de 15 anos que foi, pois não tinha sapato social e teve que ir de tênis com gravata (hoje é estilo isso).
Lembro de ele, assim como eu, ter tido o peso de "ser o aluno exemplar" na escola, afinal todo mundo conhecia o seu Claudio. Ainda bem que foi assim.
Lembro de ele ser noveleiro, memorizar falas e cenas (principalmente depois da ascensão do youtube) e desejar fortemente visitar lugares onde tudo foi filmado. E visitou os jardins, torres, castelos, ... e há de visitar os canais.
Lembro de brigas homéricas. De coisas quebradas, mas também lembro que quando em grupo, ele falava olhando pra mim. E de ele ter vontade de comprar briga com quem me magoava.
Faz de conta que a gente se dava bem II...
Lembro de ele ficar brabo quando me mudei. E ficar brabo quando retornei após 4 anos. E ficar brabo de novo quando me mudei novamente, após 5 anos. E ele não queria nem me dar a televisão e nem levar a mesa que, por sinal, era minha.
Lembro que ele organizou todo meu apê. E ficou meses e meses sem querer me visitar, pois estava traumatizado.
Lembro que ele me ligou quando decidiu que queria dar um rumo diferente na profissão dele. Ligou também quando conseguiu, após semanas de luta, a colocação que almejava e hoje o faz feliz.
Lembro de ele se assustar com a possibilidade de viajar o oceano e ir para tão longe, falar outra língua e me ligar dizendo que não ia mais e depois me ligar de dentro do avião, dizendo que tudo estava em ordem. E eu chorar de emoção.
Lembro que ele foi o último a falar comigo, quando eu, dentro do avião, estava prestes a cruzar o oceano, mais uma vez sozinha. Ele não entende, mas sabe que tenho medo. E depois reconheceu que eu realmente tenho essa dificuldade quando "por medo de avião segurei a sua mão" na decolagem lá nas terras alemãs.
Lembro de muitas conversas sobre anseios e ansiedades e, apesar das rusgas, nos entendermos no que diz respeito "Estou com um frio na barriga". Até mesmo no Champ de Mars, pois somos muito chiques e metidos.
Lembro de pedir ajuda a ele para vestir a meia calça, pra me proteger do inverno alemão, e ele habilidoso que só, não somente não me ajudou como me proporcionou um tombo. Vim a pique, cai da própria altura.
A gente se dá bem, afinal de contas... 
Aqui são muitas lembranças. E tantas outras existem também. Mas a questão é que eu. há três décadas atras, não fazia questão de ter coisas pra lembrar depois dos anos. Na verdade, preciso reconhecer, não quis mesmo e desde o início, quando uma barriga estranha cresceu na minha mãe. Desde que aquele Rei estava na barriga dela. Rei, pois nasceu justamente no dia de Reis. E hoje, reina na minha vida, como Rei polêmico, mas absoluto. E sem querer e já querendo, não sei como seria se não fosse irmã mais velha, mandona, chata, louca, boba, feia, chata e horrorosa desse ser único, exigente, educado, estourado, inteligente, culto, cuidadoso e MEU IRMÃO.