O agente de viagens, também conhecido como meu irmão, há meses organiza tudo. Na verdade, desde agosto. Procurar promoções, voos lowcost, trens, tickets de trem, entradas de musues, rotas e roteiros dá trabalho e piriris. Muitos piriris. E eu tentando o convencer de que qualquer ansiedade simplesmente terminaria ao chegara ao aeroporto. E nao foi que nao saiu conforme planejado? E a minha promessa não se concretizou. A mala nova "do agente", com apenas metade do peso, estourou. Mas nada "desmorounou", apesar de ele ter dito que era essa sensação.
A mãe de azul, combinante, com um echarpe azul floreada (a qual já tirou nos primeiros minutos no aeroporto, pois só usa para fazer charme, mas não se sente bem) queria já de dentro da van, recém estacionando no aeroporto, desembarcar, pegar a mala estourada e ir consertar. Fez isso, saiu "correndo", mas nao tinha ideia de onde podia arrumar a situacao. Resolvido com o protec bag, vamos pro check-in: "Tenho up grade pra executiva". "Será que o rapaz conhece o presidente da empresa em que trabalha? Eu sim." . "Mãe, não dá "carteiraço" que não vai funcionar!" Tudo certo. E a executiva deles garantida.
O pai meio perdido. Acho que quietinho de concentrado. Também combinante, mas de azul. E meio descabelado, no pouco cabelo branco que lhe resta na cabeça calva. "Vamos comer alguma coisa? Me dá o dinheiro, Jacinta!" Silencio pensativo. "Te dei os reais, mas acho que tu deixou em casa pelo jeito." Pai, usa meu cartao. A senha é xxxx. Memorizou?". Falei isso 5x ."Vou ali pedir a comida e já volto." Dois minutos e ele volta. " Vou ali no outro lugar." "Pai, a senha é... " . "Já memorizei na primeira vez, filha!"
A número 5, também chamada de Mana, Xuxa, Eliz, fica sempre meio perdida no meio disso tudo. Segue a gente só. "Cadê a Eliz? Não que a gente já perdeu ela em Poa?!" Ai ela diz: "Eu tô com fome, May, e vi que ali em cima tem chopp também. Vamos ali depois?!" Chega ela, minutos depois, com mc, batata, sundae, refri. "Ah, e esqueci que eu queria era tomar chopp!Droga!!"
Teve um que não veio na van com a gente e achou um exagero a quantidade de malas que saiu de dentro daquele escolar que a gente "fretou" para trazer a patota da zona sul ( com parada na zona norte para buscar essa que vos escreve). Aposto que pensou "Ainda que bem vim de uber e ainda deu tempo de fumar um cigarro!" Um chopp depois, hora de embarcar, vai ele fumar mais um. "Vejo voces lá dentro, pois a polícia federal sempre implica comigo." Passaporte dele é vermelho.
O pediatra que contratamos, para niguém ter crise de infantilidade, "entrou na faca" duas vezes nos ultimos três meses. "Tu vai escrever de mim. Sou sobrevivente." Galera ficou nervosa se a recuperação seria em tempo. Eu até cheguei a me sentir meio insensível em relaçao a isso, pois tinha certeza absoluta de que ele viajaria. Minha intuição não falha. E eis que ele já vem fazendo as piadas sem graça dele desde o aeroporto, pois queria comer um xis tudo, antes de embarcar. Se eu soubesse, tinha comprado no boteco do lado de casa e trazido para ele.
A professora de matemática trouxe monte de creminhos e perfuminhos. Sem procedência. Sem rótulo. Demorou no raio x. Justo ela. Que já estava emocionada desde a hora que eu disse "Fica tranquila, não terei tpm durante a viagem. Será somente a brabeza habitual mesmo!" Ou então tava chorosa da despedida
com a filha e o genro que vieram jantar conosco no pré-embarque.
Nesse contexto todo, me senti, deslocada. Acalmando o nervosismo do Mano. Dando com pito na agitação da mãe, brincando com Gelson e o Pai, zoando da Eliz que já estava com sono e do Marco nos Rrs. E alertando a Lu sobre minhas brabezas. E eu nisso tudo? Não tive tempo de pensar. Mas a questão é que eu nao gosto de avião. Entrando no finger, começou a tremedeira. O nó na garganta. O tique da mão. Movendo o polegar em movimentos curtos e circulares. A perna meio dormente. A vontade de chorar. Mano, sabendo disso, todo tempo do meu lado, dizendo que avião é seguro e é legal. Na hora de entrar no avião, paralisei. A viagem vai começar para mim também. É o que parece. Ele disse: "Respira fundo. Está tudo certo, Mana, quer segurar minha mão pra entrar?"



