Não faz muito tempo que percebi o quanto já alcancei nessa caminhada. São 15 anos de docência, mas acho que nunca efetivamente consegui mensurar o que isso significa mesmo. Foram momentos incontáveis, alunos inumeráveis, colegas inesquecíveis, amigos especiais, experiências intensas.
Nesse tempo de caminhada, que na verdade iniciou antes de receber o grau de licenciada em Letras, foram N experiências profissionais. Pequenas escolas. Grandes escolas. Escolas no interior. Escolas na capital. Escolas particulares. Escola pública. Ensino de Língua Portuguesa. Ensino de Língua Alemã. Ensino de Música (!!!).
Tive uma crise significativa de identidade profissional em 2011, em meio à pós-graduação. Será que é isso que quero? Mas achava que ainda era cedo para desistir. Segui, me reencontrei. Aos trancos e barrancos. Joguei tudo para o alto mais de uma vez. Voltei pro início, recomecei do zero. Sem dúvida, todos os lugares pelos quais passei me moldaram, sejam pelas experiências sensacionais proporcionadas, sejam até pelas frustrações de achar que ainda não era quem deveria ser, sejam pelas "brigas", "pressões", choros, exigências.
Tive outra crise esse ano. Ou melhor, estou tendo. Não é exclusividade minha, são tempos críticos. Voltei à vida escolar semanas antes dessa quarentena sem fim. Dei o braço a torcer e encarei a nova velha realidade, apesar de estar feliz onde estava/estou. E aí tudo mudou! Nem deu para ter o gostinho de como seria essa readaptação.
E foi uma enxurrada de coisas novas que, hoje reconheço, foram demais desde o início. Não é agora que começou a pesar, pesou desde o início. Pesou muito. E pesa ainda. Enfrento as demandas e luto com os sentimentos que foram se criando. O último foi um desânimo crônico que percebi estar sendo maior do que deveria. Percebi e o deixei surgir para poder entendê-lo: Será que faz sentido? Será que faço alguma diferença? Será que as coisas só vão apenas seguindo no automático sem a gente perceber?
Mas na verdade, tenho orgulho do que escolhi. Tenho orgulho da caminhada, cheia de crises e conquistas, tenho orgulho da diferença que essa escolha profissional fez na minha história de vida. E de que ainda fará. Ainda não dei conta dos questionamentos que faço a mim mesma e sobre o meu papel nisso tudo. Mas dias melhores virão! Em breve! E tenho a impressão leve de que tudo isso faz a diferença nos outros, sim! Ao menos o "Danke, Frau Engel" de hoje cedo me provou isso!
Eu andei sonhando com gente
que não vejo há mais de 15 anos. Isso foi essa semana. Tudo bem, andei achando
uma foto antiga, então na verdade não foi à toa. Acontece que acordei com
saudade. Não sei nem mais do quê!
A vizinha estava com algum
tipo de vazamento. Sabe quando a descarga tranca e a água fica correndo? Era
bem acima da minha cabeça. Três dias. Correndo sem parar. De enlouquecer. Era
torturante. Sonhei que o teto desabava na minha cabeça. Acho que foi na mesma
noite que sonhei com o ex (a pessoa de 15 anos atrás!). Calcula a confusão que
foi a noite.
Hoje faz seis meses. Seis
meses. SEIS MESES! 18 de março foi meu último dia de aula presencial. SEIS
MESES! Lembro como hoje! Lembro de quem encontrei, do assunto da aula, de onde
estava antes e depois. Lembro de pensar nas estratégias para as próximas
semanas.
Sabe o que lembro também bem
claramente? Da capacitação que foi feita, via zoom com colegas e o chefe, para pensar
na condução das aulas online. E eu relembro hoje ainda o mesmo sentimento: “para
que tudo isso? Não vai dar em nada. Logo vamos voltar. Estamos “perdendo tempo”.”
Lembro que foram várias e
várias horas de reunião. E ao final, ao entardecer da sexta, último dia de
formação daquela semana, o chefe chorou. E eu desliguei a câmera e chorei
também. Reconheci dentro de mim: talvez isso faça sentido, pois acho que há de
durar mais tempo do que EU pensava! Pois
então, chorei nos demais entardeceres ao longo de toda a semana seguinte. E eu
detesto/evito chorar.
Mas sinceramente, venho
buscando ainda o sentido. Sei, como todas as forças, que o que faço faz
diferença. Bah, vou confessar, tem vezes que para mim não sei mais se faz. Ao
mesmo tempo, consigo entender de onde esses sentimentos surgem e tento canalizá-los
de outras formas. Sei que faço a minha parte para que, algumas pessoas realizem
sonhos, atinjam metas, enxerguem novas perspectivas. Mas tem vezes que me
pergunto onde meus sonhos, minhas metas, minhas perspectivas ficaram! E aí se
estabelece uma certa confusão! Mas eu sigo.
No meu caso, todas essas questões
(as quais tenho certeza não são exclusividade minha) se devem a um fator
determinante (o qual tenho certeza não é exclusividade minha): não estou
podendo controlar nada. A cada semana uma demanda nova (e nada da vacina!). E
não reclamo de trabalho, não! Mas nem sempre a mente acompanha tudo o que acontece
e me admiro (e admiro a mim mesma, modéstia à parte) por “dar conta” mesmo sem
dar.
É bem verdade que, em seis
meses muito mudou. Eu mudei. Meu mundo (ao menos as pessoas que dele fazem
parte) mudou! A casa mudou. A casa mesmo.
Tipo, o apê. Tenho escrivaninha e um escritório (depois de mais de meia
quarentena, parar de trabalhar na sala me fez um grande bem!). Tenho poltronas
na sala. Tenho uma cama de verdade no quarto extra. Tenho uma cama nova
altíssima que passou a ser meu refúgio na hora do intervalo ( não me julguem,
eu cochilo no recreio).
Também tem uma placa de “VENDE-SE”
lá no meu ninho. Lá onde eu tenho sempre um quarto. Um lugar à mesa. Uma
cadeira para sentar ao sol. Um kit mate e outro kit birita. Um kit skin care.
Um kit ressaca . E o Kit sobrevivência que atende pela alcunha de “PaiMãeMano”.
Ah, lá tem sempre alguma entrega do Mercado Livre também.
Eu não segui com a terapia nesse
tempo, por que minha vida passou a ser online e para “terapizar” tudo isso na
tela do computador ainda não estou preparada. Nem chamada de vídeo com as
amigas, para matar a saudade, eu consigo fazer. É demais para mim de vez em
quando. Por enquanto, o cano da descarga da vizinha está sob controle. O meu,
já não sei! Na verdade, está, sim, pensando bem. Voltei a me dar o direito de
chorar. Não todo fim de tarde. Mas em alguns. Ou quando eu acordo com alguma
saudade. E vou dizer, não é pouca. E “saudade” de ex não é nada. Tem tanta
gente que eu queria abraçar (oi? Eu nem sou de abraço!!!!), mas me privo de ver
para manter o “privilégio” de ainda ter os meus nesse mundo.
São seis meses! Seis meses que
me transforaram em uma professora diferente que nem eu mesma ainda sei quem é.
Que volta e meia segue tentando achar sentido lá naquela formação intensiva
para aula online em março e que segue se refazendo como profissional.
São seis meses! Seis meses que
me transformaram em uma pessoa diferente. Não necessariamente melhor. Mas acho
que sim! Torcendo que a água da vizinha siga sob controle. E que nenhum ex me
apareça em sonho, né? Por favor! Tenho saudade é de coisas do presente...
Eu sempre imaginava como seria ter
escolhido outra profissão.
Eu sempre imaginava como seria trabalhar em algo que
me possibilitasse trabalhar em casa.
Eu
sempre imaginava poder acordar a hora que quisesse, fazer meu horário, tomar
meu café com calma, ler as notícias. Fantasiava ficar sentada em frente ao
computador, cumprindo as tarefas cotidianas de pijama e com meu mate ao lado.
Não era questão de ter me
arrependido da escolha profissional que fiz, não! A crise de identidade docente
tive há uns oito anos. E passou! Encontrei-me. Amadureci e lá se vão quinze anos
como professora, aprendendo com erros e orgulhosa do que já conquistei. Mas
sempre imaginei poder desacelerar, ficar em casa, no meu canto tantas vezes pouco
apreciado.
Pois então. Cá estou. Em casa.
Não de pijama, mas quase isso. Com mate ao lado. Ou um vinho. Por que não? Em casa mesmo, ué?! Dei-me
24 horas de folga nesse final de semana (na verdade, pouco menos), depois de sete dias dentro de casa (e apenas 2
saídas!). Horas e horas de home office, percebendo que minha escolha me
proporciona, sim, a possibilidade de trabalhar em casa, no meu canto, isolada,
em isolamento.
E sabe o quê? Não levantei na
hora que queria, não! (Aliás, algumas vezes acordei de fato muito mais cedo do
que o normal!!). Não tomei café com calma e nem li as notícias (essas deixei de
lado de propósito!). Fiz meu mate e não tive tempo de tomar. Fiquei de pijama em algumas vezes,
mas com uma vontade louca de me arrumar, me ajeitar, sair. Outras vezes, o pijama seguiu só da cintura para baixo, afinal não aparece na câmera. Fiquei em frente ao
computador, mas com uma vontade imensa de tumulto, contato, abraço. Aliás,
contato não faltou. Não me senti sozinha em NENHUM momento essa semana. Não
posso reclamar.
Faz uma semana que foquei no
isolamento e no tão sonhando home office. O que conclui disso? Estou
muito mais próxima dos meus que antes (almocei com a família em plena quarta-feira, por que não precisei me deslocar, só realizar a chamada de vídeo!) e isso me faz perceber que não sou mais a
mesma de uma semana atrás. Reinventando-me. Vivi uma vibe muito
diferente de qualquer coisa que já tinha vivenciado. Foi um esgotamento bem
grande, mas proporcional a todo amor que passou a emanar em meio ao caos e à
incerteza do que nos aguarda. Tantos momentos de trocas, vivências, contatos...
emociona pensar no que foi construído na relação com os que me são queridos.
Não seremos mais os mesmos! E que isso nos sirva de lição.
Mas percebi que, do lado de cá, o
desafio é bem maior, sabe? Que vou precisar retornar em um caminho que já me
era conhecido e começar outro. Reencontrar-me e amadurecer no meu caminho profissional
também com a necessidade de uma nova perspectiva. Fim das contas, estou saindo
da zona de conforto. E preciso confessar: ela é bem desconfortável, pois as
cadeiras aqui de casa são terríveis! E eu sonhava com home office. Cada
uma né!?
(Escuta aí a trilha sonora que me embalou a primeira semana de isolamento.