quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sou bem neta do Eduardinho

Meu avô paterno se chamava Eduardo. Foi sapateiro, durante muitos anos, na Lucas (sim, essa mesma da lomba!). Não vivenciei sua oficina no meio dos ricaços pois quando nasci a casa azul já existia e Lucas era passado. Lembro da oficina que ele tinha, no fundo do pátio do Guarujá. Ele já não exercicia o ofício como sustento. Era para consertar os calçados da família mesmo. A oficina era pequena, cheia de "tralhas" e o modesto maquinário do seu trabalho/hobby. Mas ali também se escondia uma paixão, pendurada nas paredes. Paixão em alguns casos meio desbotada, mas de qualquer forma com cores bem definidas: azul, preto e branco. Eduardinho era gremista. Daqueles de antes do Olimpico. Sei que tinha um melhor amigo, o "alemão Alfredo" e eles eram parceiros de xingamentos ao juiz, desde a época da Baixada.
Diz meu pai que o vô nunca influenciou os filhos na escolha pelo time. Mas ela foi natural. Até hoje, meu tio e meu pai se telefonam domingos à tarde, para discutir os gols da rodada. Sem falta. Mesmo quando não há gols. Não há tantos posters nas paredes deles, mas os filhos do Eduardinho, por força do hábito talvez, herdaram a mesma paixão.
Eu via os posters do vô nas paredes. Eu ouvia meu pai e meu tio conversarem sobre o Grêmio. Não fui influenciada a escolher o time a torcer. Pelo contrário, tive liberdade para vivenciar ambos os lados. Meu primeiro jogo de futebol em estádio foi no Beira Rio. Pai e tio me levavam lá, quando eu era criança. Em jogos de Gauchão, se não estivesse casa cheia, era liberada a entrada no segundo tempo. Lembro de dar a volta no estádio, brincando,  e de certa vez até perder minha havaianas. Mas não teve jeito, o alvi-rubro não balançou meu coração.
Em 94 o Grêmio ganhou a Copa do Brasil em cima do Ceará. Essa é a lembrança mais viva e "madura" que tenho sobre ser gremista. Eu tinha 11 anos, então óbvio que eu não era tão madura ainda. Lembro que o Eduardinho não quis ouvir a final (ele era adepto do radinho de pilha, grudado no ouvido, no volume máximo, pois ele era parcialmente surdo), pois jogo decisivo ele preferia não acompanhar. Ficava sentado no sofá, perna cruzada, mão no queixo, cabeça baixa, pensativo e nervoso. Nervoso ficou também naquela final de Libertadores em 1995 contra os colombianos. Arrasado ficou na final contra o Ajax, depois das penalidades. Na final do Brasileiro contra a Portuguesa, em 1996, eu que o avisei que o Tricolor tinha saído campeão. Da mesma forma, Eduardinho não ligou seu radinho em 1997, mesmo com o seu Grêmio sendo campeão invicto. (Em 1998, um mês depois de dançar a valsa dos meus 15, ele partiu.)
 Tenho vivas lembranças de jogos históricos. Lembro de vibrar. Gritar, xingar, chorar. Acordar mal humorada no dia seguinte, com algum jogo perdido, independente se Copa do Brasil, se Brasileirão, Libertadores ou Gauchão. E de desfilar minha "camiseta oficial com o símbolo emborrachado".
Muitas vezes, fui com pai no Olimpico. Passamos a dividir a paixão tricolor. Sentir o estádio pulsar e tremer, literalmente, mexia nas entranhas.  Não dava pra se imaginar algo diferente do que ser o "tricolor de Porto Alegre e ter a alma azul celeste".  Virou coisa de pai e filha. Com direito a ir ao Olimpico com mala para depois embarcar para Carazinho. Com direito a ele assistir daqui e eu de lá, e a gente ir se combinando qual final de semana eu viria e para qual jogo. Com direito a vários ingressos de presente para assistir quase de camarote. Mas a força da correria, fez com que pra mim as coisas ficassem mornas. Depois daquela final em casa, perdida pro Boca, "desiludi". E claro, o fato do colorado começar a ganhar seu espaço, e começar a entender o que significa ser tão grande assim como nós, ajudou na desilusão. Ajudou a eu deixar de lado e, muitas vezes, não ter muito mais o que falar sobre o Grêmio com o pai. Sem deixar, claro, de eventualmente e secretamente continuar por dentro das coisas.
Minha primeira vez na Arena foi lógico com o pai (na daqui e na de lá, pois assistimos também ao Bayern em sua Arena em Munique e até vestimos vermelho!!!). Senti falta do tremer da arquibancada, como era no Olimpico. Mas o tamanho do estádio ecoava em coisas aqui de dentro, de origem, de raízes. E eu lembrava do Eduardinho. Ficaria impressionado com o tamanho da Arena e com torcida, na qual seus xingamentos e imprompérios se misturariam, mesmo que ele não a pudesse de fato ouvir claramente. Ficaria também ansioso e nervoso com o jejum de títulos e com o Internacional alçando voos muito mais altos que os nossos. Ontem me dei conta do quão ansiosa eu estava também. Senti que o Eduardinho Tricolor está muito presente no seu filho e na sua neta. Pai mandou mensagem, antes do jogo dizendo que ia dormir. Nervoso e ansioso que estava, como o seu velho pai. "Velho Eduardinho nervoso, pai?" "Sim", disse ele, mas acabou assistindo.
E eu não fiquei longe dos hábitos do vô, não! Eu gritei imprompérios aqui impronunciáveis e não
conseguia nem escutar o que era dito, assim como meu velho avô.

Quem me conhece há menos de 15 anos, pode achar que sou gremista de ocasião. E que agora  grito aliviada também por que o co-irmão está, sim, muito aquém do que merece e do que já foi. Não vou negar que a "flauta" anda forte. Mas não é só de alivio, não! É que redescobri, relembrei e reencontrei, sim nos últimos tempos, mas não só por causa disso, que Grêmio para mim é coisa de coração. É coisa de pai e filha. E afirmo que os anos de "hiato" de títulos tricolores e meu  silêncio como torcedora em relação a isso nada mais foram do que, de certa forma, o que o Eduardinho fazia, sentado no sofá, pensativo e sem querer ouvir situações decisivas, esperando alguém gritar para ele que o Imortal Tricolor tinha vencido. E ai então comemorar.
Pois então...vieram me avisar. E eu vou gritar, xingar, extravasar, comemorar, cornetear, debochar. Sabe por quê? Sou bem neta do Eduardinho!





segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Zona de conforto...







De acordo com meus amigos psicólogos, zona de conforto é um estado psicológico onde a pessoa não está nem estimulada e nem desestimulada em relação a algo. É um posicionamento neutro frente a novas ideias, projetos, resoluções, decisões.
Meu chuveiro elétrico não tem muita pressão. A água sai, mas não com muita força. Lembro disso na hora do banho. Mas tem que chamar alguém. Deixa assim.
A televisão é antiga. A imagem já não é lá essas coisas. Dizem que vai acabar o sinal analógico. Só que ela está ali, em cima da bancada, bem posicionada. Outra TV exige não só investimento. Mas mudança na disposição dos móveis. Deixa assim.
E por falar em sala. O sofá. Ah, o sofá. É usado da mãe. Já veio amaciado. Terrivelmente amaciado. Na verdade, tão amaciado que perdeu o macio. A gata ajudou e desfiou. Tenho que trocar. Achei, então, uma mantinhas de flanela no Carrefour. Botei no sofá. Deixa assim.
Meu travesseiro é daqueles que dizem ser da “NASA”. Daqueles que se adaptam ao movimento e ao posicionamento da cabeça. Maravilhoso. Só que foi para o espaço. Literalmente. Acordo com torcicolo muitas vezes. Mas tem meu cheirinho. E as fronhas cabem direitinho. Deixa assim.
A torneira da cozinha só tem água fria. O dono do apê disse que trocaria. Era só eu chamar. Mas aí tem que chamar. Literalmente. E a torneira tem água de qualquer jeito. Deixa assim.
Eu sei que fazer abdominal na barra tem mais efeito no treino funcional. Mas é que não tenho muita força no braço. Vamos, lá. Tu consegues. Força. A mente que manda. Ah, mas tem como fazer um outro exercício, com movimento equivalente? Deixa assim.
Não se deve dirigir com pé na embreagem. Qualquer tipo de pressão prejudica a caixa e a longo prazo influencia o desempenho do carro. Só deve ser utilizado nos segundos finais da frenagem e para ‘’arrancar”. Isso foi o que ouvi. Mas me sinto mais segura com o pé ali apoiado, pronto para  qualquer cambiada repentina, ou pisada fundo junto com freio na descida da Ramiro. Deixa assim.
Calma. Desacelera esse coração. Tenta relaxar, curtir o dia, o tempo livre. Tão raro te ver sem trabalhar. Como assim? Põe o despertador aí para o cochilo “sem hora” de domingo. O que vai fazer no feriado? No findi? Que vai fazer às 17h de sexta? Dizem que é melhor não ser tão acelerada. Será que sei ser diferente? Deixa assim.
Socializa. Conhece novas pessoas. Te abre. Percebeu que isso já não te faz bem? Não volta atrás. Isso não vai mudar. Nada mudou e olha que faz tempo. Tem gente querendo esse espaço aí na tua vida. Não é tão assustador. Desesperador. O novo é bom. É bom. Será?! Dá preguiça começar de novo. Deixa assim.
De acordo com meus amigos psicólogos, zona de conforto é um estado psicológico onde a pessoa não está nem estimulada e nem desestimulada em relação a algo. É um posicionamento neutro frente a novas ideias, projetos, resoluções, decisões.
Sai dessa zona de conforto. Troca esse chuveiro. Compra essa tv. Arruma esse sofá. E esse monte de travesseiro velho, hein?! Põe a torneira quente na pia. Treina na barra, mesmo que dê calo. Tira o pé da embreagem. Deixa o celular off-line. Levanta a cabeça, olha pra frente. Olha para os lados. Não deixa mais assim, não.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

NÃO LEIA: Sou de direita, comprei as dores e ''chutei o balde''...

Geralmente evito discutir posicionamentos políticos e ideológicos. Tenho a tendência a dizer que sou "apolítica". Mas isso ocorre, pois sempre tenho a impressão de que meus argumentos são inferiores, que não vou conseguir expor e/ou defender o que penso, principalmente se ocorrer alguma tentativa entusiasta de me convencerem de que o que penso não é válido.
Há coisas subjetivas na vida. O julgar o que é certo e errado, algumas vezes, pode ser também subjetivo. Eu acho errado, por exemplo, torcer para o Inter. Por quê? Pois sou gremista. Mas isso é subjetivo. Acho absurdo e imaturo os colorados hoje comemorando uma decisão de perda de mando de campo do Grêmio na final, baseada em uma denúncia parcial e uma decisão mais ridiculamente parcial do STJD,  mas sabe o quê? Isso sou eu que penso. Eu acho errado usar adoçante. Mas isso eu penso. Em relação à política e subjetivamente falando, em relação ao que EU acredito, ao que EU penso, ao que EU faço, declaro, para quem ainda não sabia, que sou de DIREITA.
Já fui chamada de "filhinha de papai", pois estudava em faculdade particular, durante o dia, sem ter chance de trabalhar ao longo da formação. A mesma pessoa anos depois me chamou de "burguesa" por trabalhar em escola particular, cujo público/clientela é CLASSE A.
Não tenho que dar satisfação a ninguém. Mas sabem por que estudei de dia e em universidade particular? Eu tinha bolsa, bem antes de existir ENEM, Pro Uni e sei lá o quê. Eu fazia 10 disciplinas no semestre e fiquei doente de tanto que estudava. Às vezes não tinha grana pro xerox ou pra comprar os livros. Mas era filhinha de papai!
Sabem que, na tal escola particular classe A, eu era auxiliar e ganhava menos da metade do salário? Eu dava aula em outras escolinhas de idioma pra melhorar a renda e chegava a pegar 8 bus por dia. Sabia? Às vezes não sobrava grana pro TRI escolar?! Levava marmita não por que era fitness, mas pra poupar. Acompanhei alunos pra Europa, sim, mas não com meu dinheiro e nem o tinha lá para gastar. E sei que assim, muitos vivem. E sei que para muitos, estudar é o caminho para melhorar, seguir, evoluir.
Eu escolhi, por enquanto, não fazer mestrado, doutorado. Mas sei que muitos estão academicamente mais evoluídos que eu, pois tem objetivos claros de vida. Pessoas que passaram por dificuldades semelhantes, o até mesmo piores do que as minhas. Admiro-as. Com todas as forças do meu coração. E isso, independe de posicionamento político.
Tenho uma amiga. Ela foi minha colega na faculdade. Era minha novata. Sei das dificuldades imensas que ela passou naquela época. Também era "filhinha de papai'', pois estudou de dia em faculdade particular, sabe?! Ela se formou, se mudou pra outro estado. Fez mestrado lá. Passou no doutorado aqui. E surgiu o problema.
Trabalha. Tem família. Não é a "filhinha de papai" que alguns pensam. Assim como eu não sou. Ela vem toda a semana de lá pra cá. São umas 20 horas de bus toda a semana, ida e volta! Nem sempre avião tem passagem em conta. Por isso, toda essa mão pra conseguir assistir 3 turnos de aula semanais. Ela fica na minha casa, dorme uma noite e a gente faz uma junção dos trocados de vez em quando pra pagar gasolina, pra comprar algumas coisas no mercado, pra se ajudar... É tipo uma PEC individual. "Gasto mais pra estudar, do que ganho trabalhando, mas o doutorado na federal é um sonho e uma forma de de fato conseguir alcançar meus sonhos e objetivos profissionais! Então, enfrento!"
Semanas atrás, ela vibrou como criança, pois conseguiu achar passagem de avião proporcionalmente mais em conta que o bus. Isso é raro. Pulou, pois teria algumas semanas de deslocamento menos cansativo e mais humano para quem trabalha de segunda a quarta toda sua carga horária para então viajar e estudar. Isso sem contar a filha pequena, o marido ... Ela estava em um entusiasmo sem medida. Chegou a me incomodar. Eu sabia que essa semana, ela viria, portanto, de avião.
Eis que a universidade está ocupada. Eis que não tem aula. Eis que ela não tem dinheiro sobrando, mas vai jogar dinheiro fora com a passagem de avião, que não tem reembolso.
Entendam... não estou dizendo que concordo com tudo o que a PEC representa e apresenta. Não concordo com os rumos da política. Não concordo com o governo que se apresenta e sou a favor do "FORA TEMER". Mas não concordo, e ai entra a minha subjetividade e de alguns que me cercam, com o "direito de ocupar" e  com a privação do direito de ir, vir, estudar, evoluir.. direitos esses que são dos outros.
Teu direito termina onde o meu começa. É meu direito me posicionar ''apoliticamente'' de direita. É meu direito me manifestar e dizer que não concordo. É meu direito ir pra rua, como de fato fui, em um "FORA DILMA".  Graças a Deus, as pessoas que me são preciosas e de meu convívio, e que pensam diferente do que aqui argumento, sabem conviver com essa diferença. Ao menos assim espero. É meu direito, por isso, não ser julgada ou taxada de golpista, fascista (eita palavrinha irritante e erroneamente atribuída!), coxinha, elite, filhinha de papai, burguesa... ninguém sabe o que vivi, o que vivo. Não me venha, com todo o respeito e dentro do MEU DIREITO DE SUBJETIVIDADE, me convencer de que ocupar é democracia e de que ir pra rua fazer baderna, fazer assembleias com quórum duvidoso, gritar ofensas descabidas e argumentos desconexos faz sentido. Não faz...pra mim. Se achas que meu argumento é fraco, raso, sem embasamento teórico, parcial, é teu direito. Se amanhã, eu mudar de ideia. É meu direito. Mas aqui, quem exerce o direito de OCUPAR esse texto com o que eu penso, sou EU! Por que esse é meu jeito de me manifestar. Por que lá fora, parece que alguns direitos não são levados em consideração. Mas é o que eu penso! MEU DIREITO!

NOTA: Não é crônica. É desabafo! E na tpm!


terça-feira, 15 de novembro de 2016

Grenal empatado!


Era um cruzamento. Sinal fechado. Eu no ônibus. Ele, no carro. Eu ouvindo música. Ele com o pirralho. Era sábado. Eu a caminho de uma amiga. Ele chegando em casa. O sinal abriu. O T11 arrancou e eu olhei. A gente se conheceu. Se reconheceu. No arrancar do semáforo. Sorrimos um para o outro. Abanamos. Era ele? Digita rápido. Tu que me abanou? Sim!  Também vou pra zona norte mais tarde.  E aí a coisa foi saindo do virtual, que tinha começado 6 meses antes, em um 15 de novembro.
Chorar as pitangas. Chopps de happy hour. Que vai fazer hoje? Que tal um chopp? Trabalho até as 22h. Corujas. Pizzas de super. Filme do Chico Xavier. Ou Novo Lar. Não sei. Sei que era quinta – feira santa. 
Passa para um oi. Tô na frente do trabalho. Hoje não dá. Tô com o piá. Hoje de novo não dá. Foi mal, tô com piá. Tô na frente do trabalho. Demora pra responder né? Cricricri. Tá rápido demais. Cricricri. Tardeee. Diaaaae. Selfie. Gatos. Selfie. Emoticons. Hoje não dá. Tem jogo do Inter. Amanhã tem futebol. Bah. Essa semana é par. Cansei. Assim não dá. Não quero. Nenhuma palavra. Ok. Melhor assim. Me leva pra casa. Vida segue. 
E aí... Tardeee. Diaaaae. Selfie. Gatos. Selfie. Emoticons. Demora pra responder né? Cricricri. Hoje não dá. Tô com o piá. Cansei. Assim não dá. Não quero. Nenhuma palavra. Ok. Melhor assim. Me leva pra casa. Bah, esqueci de responder. Hoje não dá, tô com a mãe aqui. Não esqueci de responder, tá? Chega. Excluído. Os dois de camisetas iguais!! Me mudei. Vou te visitar. Churrasco. Traz o piá. Bah, não tô preparado pra conhecer a família.
Vida segue. Não é pra ser. Não dá. Cansei. Chega. Não quero. Tô com saudade. Mais fácil se eu brigasse. Vai ou não vai? Tô indo... e dessa vez não volto. Dessa vez, tô fazendo terapia.
E aí... Tardeee. Diaaaae. Selfie. Gatos. Selfie. Emoticons. Placa do carro igual? Só que me faltava. Eu sempre arranjo tempo. Tu te enrola demais. Deusolivre.
Tantos surtos. Tantos ‘"chegas". Tantos “me deixa em paz”. Tantos planos. Tantas decepções. Tantas voltas. Tantos “tava com saudade, sim”. Tantos mates. Tantos textões.  Tantas decisões. Tantas convicções. Tantas diferenças. Tantas distâncias. Tantos países. Tantas confusões.
Andando em círculos. O giro é de 360 graus. Sempre. Volto para o mesmo lugar. E nada sai do lugar.  Há anos. Puta merda! Confortável assim? Não... ÓBVIO que não e tu sabe disso, mas não consigo fazer diferente. As razões para seguir são mil. As razões para continuar são outras mil. Empatou esse GRENAL. Já doeu mais. Dói ainda. Mas acostumei. Tipo a unha encravada do dedão que eu já sei que de tempos em tempos vai doer e que com o passar dos anos parece que nem dói mais como doía, sabe?! Estranho. Dor que dói sem doer, mas que continua doendo.
Era um cruzamento. Sinal fechado. Eu no ônibus. Ele, no carro.  Droga! E olha que isso foi a melhor coisa que me aconteceu... Por isso, não passo mais naquele cruzamento. Ou ao menos não olho mais para o lado. 

PS - Menos mal que, após alguns anos, os quais aqui não vou registrar, o Grêmio, o time mesmo, aquele da Arena e do Olímpico, vem bem melhor que o co-irmão, do estádio a Beira Rio. Que bela metáfora, não?







segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Você-Sabe-Quem



Meus avós paternos moravam em uma casa azul no Guarujá, justamente onde hoje é a casa dos meus pais, “minha” casa também. A casa atual, pré-fabricada marrom com janelas brancas, foi construída no ano 1987 e substituiu a casa azul antiga, que existia desde 1973 quando meu pai comprou a “propriedade”.

Lembro de na infância, morarmos na Euclides da Cunha, no Partenon e irmos para o Guarujá nos finais de semana. E eu dormia no sofá da sala que, na minha memória, era um salão imenso. Creio que hoje não seria muito maior que a sala da casa marrom, mas para uma criança de 3 anos, devia ser realmente algo enorme. Recordo igual e intensamente, que nessa mesma época, e muitas vezes, nos deparávamos com aqueles enormes insetos pretos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. E esses insetos pretos me apavoravam. É apenas o  que lembro. No mais, tenho um bloqueio relacionado às lembranças da casa azul por volta dessa época. De verdade! Tentei puxar aqui na memória. Mas não me recordo quase nada. Algo grave deve ter acontecido. Sabe o que lembro? Dos pesadelos. 

Passei a ter pesadelos, e eles seguiram, mesmo depois de já morarmos na casa marrom, ou seja, meu irmão já tinha nascido e eu, portanto devia ter cinco anos. O pesadelo era com insetos pretos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. Nesses sonhos desesperadores, tais insetos me mordiam. E não eram só os insetos pretos. Eram todos. De todas as cores. De todos os tamanhos. E eu me apavorava sempre mais, até por que o jardim tinha muitas árvores e flores e isso atraía esses insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas.  Eu lembro dos pesadelos. Isso foi há quase 30 anos.

Há uns 6 ou 7 anos, eu morava em Carazinho em um apartamento. E eu, falava sem receio, sobre minha fobia, pois sim não é um simples medo desses insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. “Mas eles são tão lindos e não fazem nada!”. Mas tenho fobia e isso a gente não controla. Entenda FOBIA é bem diferente de medo. Fobia é fobia!

Os alunos sabiam desse meu descontrole. Certa vez, não me deixaram entrar na sala, até que alguém lá de dentro deu um OK. Eu, braba pra variar, tirei satisfação pelo atraso forçado. Ao que eles disseram “Tinha um inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, na cortina. A gente tinha que espantar antes de tu entrar!” Uma lágrima escorreu!

Os amigos também sabiam. Certa vez, sentada em uma tardinha de primavera digitando provas, vi pela visão periférica um bater de asas inconfundível adentrar o apartamento vindo pela janela e se aproximando de mim. Inconfundível mesmo. Isso me lembra que minha mãe, certa vez, por me ver sair correndo do jardim, onde todos estavam reunidos tomando chimarrão, aos gritos quando algo fez um voo rasante perto de mim, disse: "Que guria bem boba. É um passarinho!" Não era passarinho. O bater de asas é COMPLETAMENTE diferente. E eu não sou boba. São anos de experiência nesse assunto. Boba, boba! Tu vai ver! Quase sai de casa, de ofendida. Meu irmão que me acalmou e avisou quando eu poderia voltar em segurança!  Não sei ainda, porém, se superei essa mágoa. Bom, voltando ao bater de asas vendo pela janela... Não tive tempo de fugir, o pé enrolou nos fios do computador e o inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, me atacou. Atacou e pousou violentamente na cortina. ATACOU, sim. Não ri! Corri pro quarto, me tranquei, peguei o telefone e mandei um sms: “Dé, se eu não aparecer amanhã na escola, é por que um monstro invadiu o apê.” (Vale salientar que, naquela mesma semana, dias antes, Dé e eu caminhávamos juntas em direção à escola e a um bater estranho de asas, eu gritei e subi a Ernesto Alves correndo. Era o inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, me atacando.). Percebendo, por isso, que se tratava de um segundo ataque semanal, Débora ligou: “May, vem pra cá então. Dorme aqui!” “Ok, vou pegar minha bolsa e tô descendo a lomba!”. Eis que a batalha começou.

A bolsa estava em cima do sofá, logo abaixo da cortina onde o inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, estava. Vinte minutos depois, eu com uma vassoura em punho e um tubo inteiro daqueles inseticidas que mal e mal matam mosquito, atendo a porta. Era a Dé. "Vim te salvar."

Ela espantou delicadamente o tal inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. Dormi aquela noite na casa dela, pois o apartamento estava fedendo a inseticida. E no dia seguinte, em cada turma em que entrei, falei sobre o significado da amizade verdadeira e sobre como devemos lutar para ajudar os amigos, aceitando-os em suas limitações e em seus descontroles.



Anos depois, no passeio da firma em uma reserva ecológica e em meio a subidas íngremes e escorregadias de uma trilha, fui perseguida por esses insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. Eles eram amarelos. Juro que fui PERSEGUIDA. Andavam em conjunto, ou seja, eram uma panapaná. Tentaram uma aproximação. Não aceitei. Óbvio. Subi correndo, pulando os degraus de troncos e pedras escorregadios, no auge do preparo físico que o funcional me deu, alertando a quem passasse que uma professora descontrolada pedia passagem em uma fuga perigosa. Entre tantas cores que eu podia escolher, vesti uma camiseta amarela. AMARELA. Faltou um tipo de orientação dos colegas, sabe?! Fiquei magoada... Na certa os insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, acharam que eu era a mãe. Talvez nunca tivessem visto ser tão amarelo. Não sei, não... mas o pessoal da firma não deve gostar de mim!  Faltou a Dé ali, mas ela hoje mora em Blumenau!


domingo, 13 de novembro de 2016

Palhaço dominical


Nunca pensei que diria isso um dia. Mas adoro segundas. Durante anos e anos, quando ainda era estudante sem grandes compromissos com a vida, eu odiava a segunda. Recomeça tudo. Volta para escola, volta para faculdade. Rotina de volta.
Hoje, depois de grandinha, o domingo me apavora. Principalmente aqueles domingos lindos de sol e temperatura agradável. É como se fosse o tal palhaço que assusta medrosos nas ruas das cidades mundo afora. Meu palhaço é o domingo.
Já fiz o teste. Ficar sozinha em casa, curtindo o descanso, a tranquilidade junto da minha gata louca é assustador. Justo eu que adoro curtir a preguiça, o cochilo e quase nunca tenho tempo para isso. Decidi então vir sempre pra casa dos veios aos domingos. E sabe o quê? Não adianta muito. Continua sendo assustador.
Tenha várias Mayanezinhas aqui dentro dessa cabeça acelerada e ansiosamente criativa. E no domingo todas elas decidem discutir a relação. Sério. Só pode ser isso. DR no domingo. Minha folga. E ai é claro que a May oficial aqui acaba sofrendo as consequências. E quem aparecer no meu caminho, vai acabar sofrendo também. E tendo que discutir a relação. Não importa se relação de amizade, relação fraternal, paternal, maternal, amorosa, ... Vou ter sempre monte de coisa pra dizer. Coisas que não surgirão em outros dias da semana. Acho eu...
É apavorante. Assustador. Desesperador pra quem tem mil e uma encucações e ansiedades a resolver. Para quem tem uma rotina louca e cansativa de segunda a sábado. Pra quem é praticamente workaholic, pois parar é assustador. Eis, portanto, o motivo de não gostar de domingo.
Achei UMA alternativa para fazer a ansiedade dominical (e a gana de esganar qualquer um) passar: desembestar por ai. Dirigindo. Ou caminhando, o que é melhor. Acelera o metabolismo. Desacelera a mente. Dilata os vasos (ou as veias?) . Acalma o coração. 
É 17 horas já. Menos de 8 horas já é segunda. Nunca pensei que diria isso um dia. Mas adoro segundas.

(Escrito em um domingo, 29.10.2016, e concluído às 17h07)