domingo, 17 de dezembro de 2017

Além do que imaginei...

Eu tenho um pequeno histórico de pequenas conquistas pessoais. Talvez nem tão pequenas. Mas acho que todo mundo tem um hall de coisas que são superações reais e mensurá-las nem sempre é justo. Consigo mesmo! Algumas coisas abalam mais ou menos. Algumas coisas a gente aprende a engolir, e toma olina para ajudar na digestão. Algumas coisas passam a ser simplesmente facílimas, comparando aquilo que ainda pode surgir. Ou que já surgiu. Algumas coisas nos protegem, nos blindam. Algumas outras nos motivam, nos inspiram, nos jogam para frente, nos dão uma espécie de up para seguir.
Faltam pouco mais de 10 dias para 2017 terminar. O saldo foi positivo, no fim das contas. Ao menos até agora. Mas teve muita coisa que puxou para baixo. Ou poderia ter puxado. Como sempre. É o saco da vida adulta, por que não tem como fugir. Mas se olho para trás e vejo que já conquistei, dá um puta orgulho de onde já cheguei. E de onde ainda posso chegar.
Ano começou lindo e agitado. Tive uma necessidade de silenciar, afastar, para depois (me) recuperar, me encontrar. Esse último processo que seguirá no próximo ano, o que de fato é libertador. Seguiu-se a correria habitual. Ora mais leve, ora mais intensa, mas nunca menos correria. Sempre pensando que as coisas vão melhorar. Mas na verdade, elas são dia a dia melhores que antes. A gente sempre pensa que pode mais no futuro e esquece do já viveu e do que vive no presente. A caminhada é o caminho, desculpa a redundância, para perceber o quão a vida é sim injusta, mas maravilhosa com a gente. Às vezes a gente tem medo de enfrentar, mas as coisas estão ali, esperando que a gente decida entrar, participar e tomar parte no choro de tristeza, mas também de alegria.
Sim! Tudo isso refleti ontem. Entrei lá. Depois de dar uma volta inteira. No sol. Descer do uber, já me deu a sensação de estar queimando. Sensação de que o buraco da camada de ozônio estava exatamente em cima de mim. E eu tinha usado camadas infinitas de protetor (minha pele em tom levemente lembrando palmito não me permite ousadias no calor escaldante) e com boné na cabeça (esse me custou os olhos da cara, mas era impossível lá estar sem algo a proteger. Mal sabia que a cabeça esquentaria mesmo. E o coração também.)
Prontamente me abasteci de líquido, afinal sou borracho, sim senhor! Já estava suando a camiseta, antes de tudo começar. Não consegui ficar aguardando no sol. Não dava conta. Me escondi. Sentei. No chão mesmo. Tentei me comunicar, antes que o sinal do telefone definitivamente terminasse. Duas semanas e pouco antes havia estado ali. Sem sol, à noite. E tinha vivido algo intenso até o nó na garganta não segurar mais as lágrimas. Naquela tarde de 16 de dezembro, estava novamente ali. Arrependi por uns momentos de não ter ficado em casa. Era o estilo do vô, do pai... Mas eu vim. Então pensei. Vou ficar aqui sentada, escondida. Não tão escondido, pois enxergava o azul. Não só do céu.
Eu tinha vindo preparada. Não era pessimismo. Era um quê de realidade. Aí ainda entrou uma mensagem dele: "Filha, já chegamos além do que podíamos imaginar!" E então percebi que isso a mais pura e escancarada verdade. Esconder-se não adiantava. Tinha que perceber o que de superação e conquista já tinha ocorrido. E valorizar isso. E perceber que estar ali, para vivenciar isso e entrar pra história e ter história para contar já era uma conquista enorme.
O sol me judiou de forma intensa. Me relembrou o quanto detesto verão. Mas tinha que enfrentar. Nem sempre consegui. Muitas vezes optei em enxergar pelo telão menor. O grande ''gritava'' na minha frente que eu já tinha vivido ali um sentimento que ainda não tinha conseguido mensurar. E eu não vim preparada pra explodir de novo, caso a conquista fosse além do imaginável. Eu acho que não estaria preparada mesmo. Dezembro de 2016 na Goethe tinha sido lindo. Novembro de 2017 ali naquele lugar tinha sido emocionante demais.
Já chegamos além do que podíamos imaginar. Eu fui além do que podia imaginar em muitas coisas da minha vida. E seguirei assim. Mas recuperar nesse último ano a alma copeira foi algo que não vou esquecer. Lembrar e reviver esse sentimento me conectou comigo mesma, por que me proporcionou momentos altamente catárticos. Chorar nas finais não era só pela paixão. Era chorar justamente por que podia extravasar o que eu não chorava em outras situações. Me permiti chorar ali. Por um motivo aparentemente fútil. Mas apaixonado. Chegar mais longe do que podia imaginar na vida e na paixão. Isso que o Grêmio me proporcionou nesse ano. Motivos para não surtar, não desistir. A olhar para minha trajetória, vendo as derrotas e valorizando muito mais as vitórias. Mesmo que elas não sejam exatamente aquelas que se julgava merecer. Solucei abraçada na minha pessoa. Chorei abraçada em pessoas que conheci ali. E percebi que ao meu redor muitas pessoas pensavam e sentiam da mesma forma que eu.

2017 termina melhor do que eu imaginava e longe de ser perfeito. Mas os planos para um 2018 já estão feitos. Eles incluirão quartas e domingos no Humaitá. Ele incluirá Gauchão, Brasileiro, Recopa e Libertadores na Arena. Ele incluirá, na minha vida, uma correria provavelmente tão sufocante como o sol da final. Mas eu sei que posso chegar mais longe do que posso imaginar. E que as coisas dão certo, mesmo que demorem, mesmo que esbarrem em barreiras intransponíveis, com o perdão do trocadilho. Passo a passo! Só ter paciência. A gente vai chegar lá. Vai por mim!

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Bem filha do meu pai!

„Preciso falar com meu pai! Preciso falar com meu pai!” Foi essa a frase que repeti após me recuperar da primeira onda de choro soluçante após o apito final. “Preciso falar com meu pai e aqui na Arena meu celular não pega!”
Emprestaram-me um celular. Liguei para casa. A mãe atendeu. (Qual colorada se dá ao trabalho de atender o telefone após o jogo!?) “Passa pro pai, logo!” Obviamente não seria possível ouvir claramente o que ele falaria, mas eu falei o que precisava: “Paaaaaai, é tri, pai! É tri! É tri!!!!” “Sim, filha! Parabéns!” Foi o que consegui entender! Chorei de novo. Soluçando!
Ano passado escrevi aqui sobre ser neta do Eduardinho, pois assisti ao jogo na Goethe, antigo Estádio da Baixada. Era final da Copa do Brasil, após jejum de 15 anos, sendo que nesse tempo o Colorado acabou com seu deserto de títulos internacionais e alcançou também a América e o Mundo. Hoje escrevo por que no final desse jogo de 2017, peguei o rumo do Humaitá, mas estava com coração no Guarujá.
Eu vinha em dias ansiosa. Acho que como toda a nação tricolor. Três dias sem dormir direito e com direito à piriri na terça. Há entre tudo isso um final de ano letivo que deixa qualquer professor exausto, então tenho certeza que somatizou. Mas era uma ansiedade diferente e eu não queria reconhecer que poderia ser um choro contido devido à possibilidade de acabar com o planeta. Mas a concentração do Grêmio ser do lado do meu trabalho, os colegas partilhando planos de ir a Buenos Aires, o grupo do whats que eu criei para combinar a reserva de mesas no Gaúcha Sports Bar não parar nenhum minuto, os comentários lidos e ouvidos sobre  drones, lesões, cartões, idas do Grêmio a Conmebol entre outras coisas não me deixavam acalmar. Fora as discussões com pai, regadas a vinho e cerveja e que não deram chance nenhuma para participação de terceiros (a saber, mãe e mano). “Pai, vou pra Arena na final!” Não convidei, ele não iria. Na verdade, não queria que eu fosse. Dizia ser perigoso, ‘’contra-mão”. Pai não é gremista de estádio. Só se for Gauchão ou alguma rodada não decisiva de Brasileiro, onde não há risco de aglomeração ou briga.  Na verdade, acho que não vai para não deixar a emoção tomar conta. Eu decidi fazer diferente!
E aí galera, Arena então? Sim! Não, vamos pra Goethe! Goethe não tem telão. Arena é longe. Decidiram por mim ir a Arena.  Não conseguia mais pensar. Fui. Pai me ligou. ‘’Já chegou na Arena, filha!?’’ “Cheguei, mas aqui vou ficar sem sinal. Já está lindo. Vazio ainda, mas o clima é demais. Acho que vai dar, pai! Falamos quando eu estiver  a caminho de casa! Espero que tri!”
Eu tinha carona pra ir para a Arena. Mas tinha compromisso antes. Não sabia se chegaria a tempo no ponto de encontro. Por sorte, a carona também atrasou. Deu tempo de passar na farmácia e comprar spray para garganta. Não tinha mais voz antes mesmo de gritar no meio do povo. E não era de ter falado demais em aula. Era o psicológico. Anestesiei as cordas vocais e fui. Partiu Arena, com direito a entrar na contra-mão na Voluntários, sermos pegos pelos Azuizinhos, que pelo que parece também são gremistas e aliviaram a barra pro pessoal que se perdeu na saída da freeway.
Agora resta achar a trupe. Portão 6. Mas por quê? Por que é aqui ué!?. Não, não... portão 3. Não disse para ninguém, mas logo após entrar e visualizar o estádio pelo lado de dentro, eu segurei para não soluçar. Já ali! E também tive vontade de ir embora. Fazer as vezes do Eduardinho que não enfrentava decisões. Voltar para casa, tomar (outro) rivotril e poupar o coração, tipo o Claudio Julio que sei que foi dormir cedo em alguns jogos. Pensei em deixar que os vizinhos me avisassem. Se o barulho fosse ao lado, Grêmio. Se fosse em cima, Lanús!
Não dava, né!? Segue firme. Bebe, por que borracho fica mais fácil. E faltava muito ainda para começar? Será que tem jogo mesmo!? Demora muito. Credo! Não vou aguentar... O celular não pegar e a memória ter enchido na primeira meia hora dentro da Arena foi a prova de que eu teria que enfrentar tudo. Focada e concentrada. E assim foi. Tanto que me perdi do grupo. Não importa! Abraça desconhecido no gol. Engole de novo o soluço. Só precisa um empate, mas ‘’pode ter revés, não esquece.” Foi o que um colorado recém vice do América me disse antes de eu ir. E eu fiquei com isso no pensamento. Pode ter revés. Pode ter revés. Poupa o coração e as lágrimas. Aí depois do Fernandinho, vai o Luan e balança a rede. Arena explodiu de novo, arrepio total e algumas lágrimas já não consegui mais segurar. E eu não queria vir!? Como assim!? 
Cervejas e cervejas depois, borracho sim, senhor. Nem vi o pênalti. E não importava. Eu estava encantada com a Arena linda de azul (eu de rosa!), preparando para explodir e acabar com o tal planeta. Olhava e olhava. Meu pai não estava ali, pois temos nossas formas diferentes de torcer. Então o apito final veio. E deixei vir os soluços! Não preciso segurar mais. E nem tenho como. Queria me convencer do quão irracional era aquilo, que chorar por causa de futebol não faz sentido. Não dá. Sentimento a gente não explica. Sente e eu estava sentindo tudo, vibrando, cantando, chorando, soluçando, abraçando, bebendo, gritando e sendo tri! Em menos de um ano dois títulos? Eu não tinha vivido isso assim, na vida adulta. E nem tive a maturidade que os 34 no lombo deveriam me dar. E por isso, chora, chora. É por futebol? É. Pagam minhas contas? Óbvio que não! Mas deixa eu extravasar tudo aqui. É catártico. É válvula de escape e só tem me feito bem.
Sobre nossa única vez juntos na Arena
Voltou o sinal. Mandei mensagem pro pai. “É triii!” “Tem samba na vizinhança aqui, filha.”(Depois soube de fontes confiáveis que faltou pouco para ele ir sambar com a galera!) “Obrigada por me fazer gremista, pai. Te amo do tamanho da Arena.” “Ah, se o Eduardinho estivesse aqui. Por causa dele que somos gremistas, filha!” “Pai, tem mais. Tô a caminho da Goethe, mas não preocupa, pai. Volto inteira pra casa. Tá tudo tri!!! ” Será que ele faria isso? Acho que não. Eu fui além. Tive que ir pra Baixada. Hoje seria aniversário do Eduardinho. Ele estaria eufórico. Assim como eu. Assim como os filhos dele que provavelmente tiveram a sensação de que a semana não teve quinta. A quarta-feira durou dois dias.

O abraço TRI apertado darei no velho amanhã! Sou bem filha do Claudio Julio, por isso eu sou exagerada, soluçante e GREMISTA. E que venha o Mundial, mas aí chama a SAMU, pois não sei se dou conta!