„Preciso falar com meu pai! Preciso falar com meu pai!” Foi essa a frase
que repeti após me recuperar da primeira onda de choro soluçante após o apito
final. “Preciso falar com meu pai e aqui na Arena meu celular não pega!”
Emprestaram-me um celular. Liguei para casa. A mãe atendeu. (Qual
colorada se dá ao trabalho de atender o telefone após o jogo!?) “Passa pro pai,
logo!” Obviamente não seria possível ouvir claramente o que ele falaria, mas eu
falei o que precisava: “Paaaaaai, é tri, pai! É tri! É tri!!!!” “Sim, filha!
Parabéns!” Foi o que consegui entender! Chorei de novo. Soluçando!
Ano passado escrevi aqui sobre ser neta do Eduardinho, pois assisti ao
jogo na Goethe, antigo Estádio da Baixada. Era final da Copa do Brasil, após
jejum de 15 anos, sendo que nesse tempo o Colorado acabou com seu deserto de
títulos internacionais e alcançou também a América e o Mundo. Hoje escrevo por
que no final desse jogo de 2017, peguei o rumo do Humaitá, mas estava com
coração no Guarujá.
Eu vinha em dias ansiosa. Acho que como toda a nação tricolor. Três dias
sem dormir direito e com direito à piriri na terça. Há entre tudo isso um final
de ano letivo que deixa qualquer professor exausto, então tenho certeza que
somatizou. Mas era uma ansiedade diferente e eu não queria reconhecer que
poderia ser um choro contido devido à possibilidade de acabar com o planeta.
Mas a concentração do Grêmio ser do lado do meu trabalho, os colegas
partilhando planos de ir a Buenos Aires, o grupo do whats que eu criei para
combinar a reserva de mesas no Gaúcha Sports Bar não parar nenhum minuto, os
comentários lidos e ouvidos sobre drones, lesões, cartões, idas do Grêmio a
Conmebol entre outras coisas não me deixavam acalmar. Fora as discussões com
pai, regadas a vinho e cerveja e que não deram chance nenhuma para participação
de terceiros (a saber, mãe e mano). “Pai, vou pra Arena na final!” Não convidei,
ele não iria. Na verdade, não queria que eu fosse. Dizia ser perigoso, ‘’contra-mão”.
Pai não é gremista de estádio. Só se for Gauchão ou alguma rodada não decisiva
de Brasileiro, onde não há risco de aglomeração ou briga. Na verdade, acho que não vai para não deixar a
emoção tomar conta. Eu decidi fazer diferente!
E aí galera, Arena então? Sim! Não, vamos pra Goethe! Goethe não tem
telão. Arena é longe. Decidiram por mim ir a Arena. Não conseguia mais pensar. Fui. Pai me ligou.
‘’Já chegou na Arena, filha!?’’ “Cheguei, mas aqui vou ficar sem sinal. Já está
lindo. Vazio ainda, mas o clima é demais. Acho que vai dar, pai! Falamos quando
eu estiver a caminho de casa! Espero que
tri!”
Eu tinha carona pra ir para a Arena. Mas tinha compromisso antes. Não
sabia se chegaria a tempo no ponto de encontro. Por sorte, a carona também
atrasou. Deu tempo de passar na farmácia e comprar spray para garganta. Não
tinha mais voz antes mesmo de gritar no meio do povo. E não era de ter falado
demais em aula. Era o psicológico. Anestesiei as cordas vocais e fui. Partiu
Arena, com direito a entrar na contra-mão na Voluntários, sermos pegos pelos
Azuizinhos, que pelo que parece também são gremistas e aliviaram a barra pro
pessoal que se perdeu na saída da freeway.
Agora resta achar a trupe. Portão 6. Mas por quê? Por que é aqui ué!?.
Não, não... portão 3. Não disse para ninguém, mas logo após entrar e visualizar
o estádio pelo lado de dentro, eu segurei para não soluçar. Já ali! E também
tive vontade de ir embora. Fazer as vezes do Eduardinho que não enfrentava
decisões. Voltar para casa, tomar (outro) rivotril e poupar o coração, tipo o
Claudio Julio que sei que foi dormir cedo em alguns jogos. Pensei em deixar que
os vizinhos me avisassem. Se o barulho fosse ao lado, Grêmio. Se fosse em cima,
Lanús!
Não dava, né!? Segue firme. Bebe, por que borracho fica mais fácil. E
faltava muito ainda para começar? Será que tem jogo mesmo!? Demora muito.
Credo! Não vou aguentar... O celular não pegar e a memória ter enchido na primeira
meia hora dentro da Arena foi a prova de que eu teria que enfrentar tudo.
Focada e concentrada. E assim foi. Tanto que me perdi do grupo. Não importa!
Abraça desconhecido no gol. Engole de novo o soluço. Só precisa um empate, mas
‘’pode ter revés, não esquece.” Foi o que um colorado recém vice do América me
disse antes de eu ir. E eu fiquei com isso no pensamento. Pode ter revés. Pode
ter revés. Poupa o coração e as lágrimas. Aí depois do Fernandinho, vai o Luan
e balança a rede. Arena explodiu de novo, arrepio total e algumas lágrimas já
não consegui mais segurar. E eu não queria vir!? Como assim!?
Cervejas e cervejas depois, borracho sim, senhor. Nem vi o pênalti. E
não importava. Eu estava encantada com a Arena linda de azul (eu de rosa!),
preparando para explodir e acabar com o tal planeta. Olhava e olhava. Meu pai
não estava ali, pois temos nossas formas diferentes de torcer. Então o apito
final veio. E deixei vir os soluços! Não preciso segurar mais. E nem tenho
como. Queria me convencer do quão irracional era aquilo, que chorar por causa
de futebol não faz sentido. Não dá. Sentimento a gente não explica. Sente e eu
estava sentindo tudo, vibrando, cantando, chorando, soluçando, abraçando,
bebendo, gritando e sendo tri! Em menos de um ano dois títulos? Eu não tinha
vivido isso assim, na vida adulta. E nem tive a maturidade que os 34 no lombo
deveriam me dar. E por isso, chora, chora. É por futebol? É. Pagam minhas
contas? Óbvio que não! Mas deixa eu extravasar tudo aqui. É catártico. É
válvula de escape e só tem me feito bem.
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| Sobre nossa única vez juntos na Arena |
O abraço TRI apertado darei no velho amanhã! Sou bem filha do Claudio
Julio, por isso eu sou exagerada, soluçante e GREMISTA. E que venha o Mundial, mas aí chama a SAMU, pois não sei se dou conta!

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