segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Você-Sabe-Quem



Meus avós paternos moravam em uma casa azul no Guarujá, justamente onde hoje é a casa dos meus pais, “minha” casa também. A casa atual, pré-fabricada marrom com janelas brancas, foi construída no ano 1987 e substituiu a casa azul antiga, que existia desde 1973 quando meu pai comprou a “propriedade”.

Lembro de na infância, morarmos na Euclides da Cunha, no Partenon e irmos para o Guarujá nos finais de semana. E eu dormia no sofá da sala que, na minha memória, era um salão imenso. Creio que hoje não seria muito maior que a sala da casa marrom, mas para uma criança de 3 anos, devia ser realmente algo enorme. Recordo igual e intensamente, que nessa mesma época, e muitas vezes, nos deparávamos com aqueles enormes insetos pretos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. E esses insetos pretos me apavoravam. É apenas o  que lembro. No mais, tenho um bloqueio relacionado às lembranças da casa azul por volta dessa época. De verdade! Tentei puxar aqui na memória. Mas não me recordo quase nada. Algo grave deve ter acontecido. Sabe o que lembro? Dos pesadelos. 

Passei a ter pesadelos, e eles seguiram, mesmo depois de já morarmos na casa marrom, ou seja, meu irmão já tinha nascido e eu, portanto devia ter cinco anos. O pesadelo era com insetos pretos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. Nesses sonhos desesperadores, tais insetos me mordiam. E não eram só os insetos pretos. Eram todos. De todas as cores. De todos os tamanhos. E eu me apavorava sempre mais, até por que o jardim tinha muitas árvores e flores e isso atraía esses insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas.  Eu lembro dos pesadelos. Isso foi há quase 30 anos.

Há uns 6 ou 7 anos, eu morava em Carazinho em um apartamento. E eu, falava sem receio, sobre minha fobia, pois sim não é um simples medo desses insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. “Mas eles são tão lindos e não fazem nada!”. Mas tenho fobia e isso a gente não controla. Entenda FOBIA é bem diferente de medo. Fobia é fobia!

Os alunos sabiam desse meu descontrole. Certa vez, não me deixaram entrar na sala, até que alguém lá de dentro deu um OK. Eu, braba pra variar, tirei satisfação pelo atraso forçado. Ao que eles disseram “Tinha um inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, na cortina. A gente tinha que espantar antes de tu entrar!” Uma lágrima escorreu!

Os amigos também sabiam. Certa vez, sentada em uma tardinha de primavera digitando provas, vi pela visão periférica um bater de asas inconfundível adentrar o apartamento vindo pela janela e se aproximando de mim. Inconfundível mesmo. Isso me lembra que minha mãe, certa vez, por me ver sair correndo do jardim, onde todos estavam reunidos tomando chimarrão, aos gritos quando algo fez um voo rasante perto de mim, disse: "Que guria bem boba. É um passarinho!" Não era passarinho. O bater de asas é COMPLETAMENTE diferente. E eu não sou boba. São anos de experiência nesse assunto. Boba, boba! Tu vai ver! Quase sai de casa, de ofendida. Meu irmão que me acalmou e avisou quando eu poderia voltar em segurança!  Não sei ainda, porém, se superei essa mágoa. Bom, voltando ao bater de asas vendo pela janela... Não tive tempo de fugir, o pé enrolou nos fios do computador e o inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, me atacou. Atacou e pousou violentamente na cortina. ATACOU, sim. Não ri! Corri pro quarto, me tranquei, peguei o telefone e mandei um sms: “Dé, se eu não aparecer amanhã na escola, é por que um monstro invadiu o apê.” (Vale salientar que, naquela mesma semana, dias antes, Dé e eu caminhávamos juntas em direção à escola e a um bater estranho de asas, eu gritei e subi a Ernesto Alves correndo. Era o inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, me atacando.). Percebendo, por isso, que se tratava de um segundo ataque semanal, Débora ligou: “May, vem pra cá então. Dorme aqui!” “Ok, vou pegar minha bolsa e tô descendo a lomba!”. Eis que a batalha começou.

A bolsa estava em cima do sofá, logo abaixo da cortina onde o inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, estava. Vinte minutos depois, eu com uma vassoura em punho e um tubo inteiro daqueles inseticidas que mal e mal matam mosquito, atendo a porta. Era a Dé. "Vim te salvar."

Ela espantou delicadamente o tal inseto que apresenta asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. Dormi aquela noite na casa dela, pois o apartamento estava fedendo a inseticida. E no dia seguinte, em cada turma em que entrei, falei sobre o significado da amizade verdadeira e sobre como devemos lutar para ajudar os amigos, aceitando-os em suas limitações e em seus descontroles.



Anos depois, no passeio da firma em uma reserva ecológica e em meio a subidas íngremes e escorregadias de uma trilha, fui perseguida por esses insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas. Eles eram amarelos. Juro que fui PERSEGUIDA. Andavam em conjunto, ou seja, eram uma panapaná. Tentaram uma aproximação. Não aceitei. Óbvio. Subi correndo, pulando os degraus de troncos e pedras escorregadios, no auge do preparo físico que o funcional me deu, alertando a quem passasse que uma professora descontrolada pedia passagem em uma fuga perigosa. Entre tantas cores que eu podia escolher, vesti uma camiseta amarela. AMARELA. Faltou um tipo de orientação dos colegas, sabe?! Fiquei magoada... Na certa os insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas, acharam que eu era a mãe. Talvez nunca tivessem visto ser tão amarelo. Não sei, não... mas o pessoal da firma não deve gostar de mim!  Faltou a Dé ali, mas ela hoje mora em Blumenau!


10 comentários:

  1. May, adoro teus contos!
    Então temos uma escritora na família.

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  2. Eu ri e muito, alemoa. Cheguei a ouvir tua voz contando. Hahahaha
    Parabéns pelo blog. Ta super show!!!
    Beijo

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  3. Rindo alto!!! Te entendo, minha linda!!! Minha fobia é de baratas. Não são bonitas como as borboletas, mas são inofensivas. Não preciso nem ver uma. Basta alguém dizer que viu, aí o caos já se instaura!
    Beijos borboleta mãe amarela ��

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  4. Não sabia do teu blog! A primeira história já adorei! Sabe qual era o meu sonho? Ter Um "Borboletário" em casa!!! Profe como se chama o conjunto de "insetos que apresentam asas desproporcionalmente maiores que seu corpo, as quais estranhamente surgem de dentro de casulos, os quais são originados de lagartas"?

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    1. Marta, o blog é recente. E eu sei do teu sonho. Não acho ele nada interessante. hahaha

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