Acordou. Algo estava estranho. O dia estava lindo. Um domingo espetacular. Daqueles
que há tempos não apreciava. Planejava aproveitá-lo como não costumava fazer.
De repente, pareceu que alguma nuvem de mau agouro poderia tomar conta daquele
pressentimento de dia auspicioso. Esse pensamento, é bem verdade, já ocorrera
no igualmente ensolarado e bem aproveitado dia anterior. Tratou de espantar os
pensamentos ruins, que por sua vez, decidiram aparecer novamente.
É bem verdade que no sábado tentou partilhar aqueles lampejos de tempestade,
pedindo um guarda-chuva emprestado, caso necessitasse. Não conseguiu o aparato
protetor de chuva e portanto, imaginou que, de fato, não seria necessário. E seguindo com as metáforas, seguiu o sábado e o domingo chegou. Mas a tempestade, não
daquelas previstas por Cleo Kuhn, chegaria com o efeito do furacão Katrina, mal sabia.
Pensou que colocar a playlist favorita e ir tomar um banho, enquanto a
água do mate esquentava, seria a melhor forma de novamente espantar um pequeno
grito de socorro que surgia. Antes tivesse ficado com cheiro de ranço dormido. A
água do chuveiro foi a tempestade caindo. Os raios vieram em forma de
lembranças do último dia em que usou uma determinada cor de vestido na vida.
Eram lembranças vivíssimas, mas eram também respostas. RESPOSTAS! As respostas há tanto buscadas. Elas vieram. ELAS
VIERAM. A tempestade foi devastadora, desoladora. O reviver de um dia, de um
momento. O explicar de vários anos. E não era questão de sofrer pelo que foi.
Justamente o contrário: pelo que não foi.
O banho lavava tudo, misturando as lágrimas de frustração ao o riso de
alívio. Frustração pelos anos em busca de respostas trancadas a sete chaves
embaixo do próprio nariz. Alívio por estarem justamente embaixo do próprio
nariz. Faltou energia após essa tempestade
metafórica. Energia vital. Teve quem a reenergizasse. Mas a energia precisava
ser reencontrada, novamente, destrancando o que havia sido trancado, negado, ressentido,
engolido.
Domingos não foram mais os mesmos. Algumas músicas o spotify não toca
mais. Os banhos passaram a ser a lembrança da lembrança. Da clarividência. Da
explicação. Das respostas. E de novas perguntas. Completamente diferentes que
conduzem a novas respostas e novas prioridades. Vive suas reconstruções,
sabendo que a tempestade, o furacão virá. Ninguém está livre. Mas esse foi
necessário para desestabilizar e posteriormente reconstruir. Seu olhar maduro
permite, hoje, carinhosamente cuidar de si, esvaziando tudo o que carregara
nesses anos e explicara e determinara de forma incrivel muita coisa ao
longo do tempo. Libertadoramente desesperador parece às vezes. E desesperadoramente libertador. Isso nem todos
sabem. Compreendem! Ela vem vivendo suas transições, algumas agora efetivamente
externas, e enfrentando seus monstros. Um segue aqui, na trilha sonora. O outro
há de ser um vestido laranja.
Beleza de texto, Mayane!!!
ResponderExcluirMaravilha! Beijão!