quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sou bem neta do Eduardinho

Meu avô paterno se chamava Eduardo. Foi sapateiro, durante muitos anos, na Lucas (sim, essa mesma da lomba!). Não vivenciei sua oficina no meio dos ricaços pois quando nasci a casa azul já existia e Lucas era passado. Lembro da oficina que ele tinha, no fundo do pátio do Guarujá. Ele já não exercicia o ofício como sustento. Era para consertar os calçados da família mesmo. A oficina era pequena, cheia de "tralhas" e o modesto maquinário do seu trabalho/hobby. Mas ali também se escondia uma paixão, pendurada nas paredes. Paixão em alguns casos meio desbotada, mas de qualquer forma com cores bem definidas: azul, preto e branco. Eduardinho era gremista. Daqueles de antes do Olimpico. Sei que tinha um melhor amigo, o "alemão Alfredo" e eles eram parceiros de xingamentos ao juiz, desde a época da Baixada.
Diz meu pai que o vô nunca influenciou os filhos na escolha pelo time. Mas ela foi natural. Até hoje, meu tio e meu pai se telefonam domingos à tarde, para discutir os gols da rodada. Sem falta. Mesmo quando não há gols. Não há tantos posters nas paredes deles, mas os filhos do Eduardinho, por força do hábito talvez, herdaram a mesma paixão.
Eu via os posters do vô nas paredes. Eu ouvia meu pai e meu tio conversarem sobre o Grêmio. Não fui influenciada a escolher o time a torcer. Pelo contrário, tive liberdade para vivenciar ambos os lados. Meu primeiro jogo de futebol em estádio foi no Beira Rio. Pai e tio me levavam lá, quando eu era criança. Em jogos de Gauchão, se não estivesse casa cheia, era liberada a entrada no segundo tempo. Lembro de dar a volta no estádio, brincando,  e de certa vez até perder minha havaianas. Mas não teve jeito, o alvi-rubro não balançou meu coração.
Em 94 o Grêmio ganhou a Copa do Brasil em cima do Ceará. Essa é a lembrança mais viva e "madura" que tenho sobre ser gremista. Eu tinha 11 anos, então óbvio que eu não era tão madura ainda. Lembro que o Eduardinho não quis ouvir a final (ele era adepto do radinho de pilha, grudado no ouvido, no volume máximo, pois ele era parcialmente surdo), pois jogo decisivo ele preferia não acompanhar. Ficava sentado no sofá, perna cruzada, mão no queixo, cabeça baixa, pensativo e nervoso. Nervoso ficou também naquela final de Libertadores em 1995 contra os colombianos. Arrasado ficou na final contra o Ajax, depois das penalidades. Na final do Brasileiro contra a Portuguesa, em 1996, eu que o avisei que o Tricolor tinha saído campeão. Da mesma forma, Eduardinho não ligou seu radinho em 1997, mesmo com o seu Grêmio sendo campeão invicto. (Em 1998, um mês depois de dançar a valsa dos meus 15, ele partiu.)
 Tenho vivas lembranças de jogos históricos. Lembro de vibrar. Gritar, xingar, chorar. Acordar mal humorada no dia seguinte, com algum jogo perdido, independente se Copa do Brasil, se Brasileirão, Libertadores ou Gauchão. E de desfilar minha "camiseta oficial com o símbolo emborrachado".
Muitas vezes, fui com pai no Olimpico. Passamos a dividir a paixão tricolor. Sentir o estádio pulsar e tremer, literalmente, mexia nas entranhas.  Não dava pra se imaginar algo diferente do que ser o "tricolor de Porto Alegre e ter a alma azul celeste".  Virou coisa de pai e filha. Com direito a ir ao Olimpico com mala para depois embarcar para Carazinho. Com direito a ele assistir daqui e eu de lá, e a gente ir se combinando qual final de semana eu viria e para qual jogo. Com direito a vários ingressos de presente para assistir quase de camarote. Mas a força da correria, fez com que pra mim as coisas ficassem mornas. Depois daquela final em casa, perdida pro Boca, "desiludi". E claro, o fato do colorado começar a ganhar seu espaço, e começar a entender o que significa ser tão grande assim como nós, ajudou na desilusão. Ajudou a eu deixar de lado e, muitas vezes, não ter muito mais o que falar sobre o Grêmio com o pai. Sem deixar, claro, de eventualmente e secretamente continuar por dentro das coisas.
Minha primeira vez na Arena foi lógico com o pai (na daqui e na de lá, pois assistimos também ao Bayern em sua Arena em Munique e até vestimos vermelho!!!). Senti falta do tremer da arquibancada, como era no Olimpico. Mas o tamanho do estádio ecoava em coisas aqui de dentro, de origem, de raízes. E eu lembrava do Eduardinho. Ficaria impressionado com o tamanho da Arena e com torcida, na qual seus xingamentos e imprompérios se misturariam, mesmo que ele não a pudesse de fato ouvir claramente. Ficaria também ansioso e nervoso com o jejum de títulos e com o Internacional alçando voos muito mais altos que os nossos. Ontem me dei conta do quão ansiosa eu estava também. Senti que o Eduardinho Tricolor está muito presente no seu filho e na sua neta. Pai mandou mensagem, antes do jogo dizendo que ia dormir. Nervoso e ansioso que estava, como o seu velho pai. "Velho Eduardinho nervoso, pai?" "Sim", disse ele, mas acabou assistindo.
E eu não fiquei longe dos hábitos do vô, não! Eu gritei imprompérios aqui impronunciáveis e não
conseguia nem escutar o que era dito, assim como meu velho avô.

Quem me conhece há menos de 15 anos, pode achar que sou gremista de ocasião. E que agora  grito aliviada também por que o co-irmão está, sim, muito aquém do que merece e do que já foi. Não vou negar que a "flauta" anda forte. Mas não é só de alivio, não! É que redescobri, relembrei e reencontrei, sim nos últimos tempos, mas não só por causa disso, que Grêmio para mim é coisa de coração. É coisa de pai e filha. E afirmo que os anos de "hiato" de títulos tricolores e meu  silêncio como torcedora em relação a isso nada mais foram do que, de certa forma, o que o Eduardinho fazia, sentado no sofá, pensativo e sem querer ouvir situações decisivas, esperando alguém gritar para ele que o Imortal Tricolor tinha vencido. E ai então comemorar.
Pois então...vieram me avisar. E eu vou gritar, xingar, extravasar, comemorar, cornetear, debochar. Sabe por quê? Sou bem neta do Eduardinho!





8 comentários:

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  2. Lindo texto, belas lembranças! Enquanto lia, lembrei do meu pai que tb era gremista fanático, porém ele assistia os jogos até o final sempre. Num destes jogos "decisivos" o coração dele não resistiu... Lembranças que fazem parte da vida!

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  3. Vanessa, querida!! Que bom que minhas palavra despertara em ti lembranças, mesmo algumas tendo um quê de saudade!!

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